O arquiteto

30/05/2016 15:50

Samuel, inteligente, era negligente; não se aplicava nos estudos. Criança, revelou aptidão para a arquitetura; a sua aversão aos estudos, no entanto, não o permitiu aprimorar o seu talento. Seu pai, Noel, e sua mãe, Irani, aconselhavam-no a estudar, e ele recusava os conselhos.

- Como tu serás um arquiteto, Samuel, se não estudas? – perguntavam-lhe os pais.

- Não gosto de estudar – retrucava Samuel, mal-humorado e desdenhoso. – Os professores são muito chatos.

- O estudo te fará falta – diziam-lhe os pais.

- Nenhuma falta me fará – retrucava Samuel, mal-humorado e desdenhoso. – Tenho talento, e sou inteligente.

- Para ser um bom arquiteto – dizia-lhe Tereza, sua avó materna – é preciso conhecer matemática.

- Para que aprender matemática? – retrucava Samuel, mal-humorado e desdenhoso. – Não quero ser professor de matemática. Quero ser arquiteto.

- Leia bons livros – aconselhava-o Nelson, seu avô paterno. – Leia os clássicos. Leia os livros de Machado de Assis, os de Arthur Azevedo, os de Monteiro Lobato, os de Eça de Queiroz, os de Camilo Castelo Branco.

- São livros chatos escritos há mais de um século – retrucava Samuel, mal-humorado e desdenhoso. – Não me interessam as histórias daquela época. E estão escritos na Língua Portuguesa antiga; e ninguém a usa mais. São antiguidades. Objetos de decoração de casas de ricaços esnobes e de profissionais liberais. O senhor Roberto, por exemplo... Refiro-me ao promotor público. Na casa dele há uma biblioteca com quase dois mil livros, e ele, e a esposa dele, e o filho e a filha dele nunca os leram. Mas sempre que alguém entra na casa, quase sempre um bajulador bocó, ridículo, ele exibe a biblioteca, e ouve os mais rasgados elogios. É constrangedor.

- Concordo, Samuel – comentava Nelson. – Muitas pessoas exibem os livros que têm, e não os lêem, é verdade. É um vício muito comum aos brasileiros. Mas isso não te impede, embora tu sejas brasileiro, como eu o sou, de ler livros, como eu li. Não repito erros e vícios alheios. Discordo de ti quanto à literatura dos escritores que citei. Não escreveram eles num português antigo; é o português moderno o deles. Tu só tens a ganhar se aprenderes a escrever bem, e adquirir conhecimentos. Tu te enriquecerás ao conhecer o que há de melhor na literatura brasileira, na portuguesa e na de outros países.

- Por que ler livros? – retrucava Samuel, mal-humorado e desdenhoso. – Não gosto de ler. Além disso, não quero ser escritor. Quero ser arquiteto

Samuel retrucava, sempre mal-humorado e desdenhoso, aos conselhos que lhe davam. Alguns conselhos, diga-se, eram contraproducentes, mas os que lhe davam seu pai, sua mãe, seus familiares e amigos o ajudariam se ele os acolhesse.

- Serei um arquiteto bem-sucedido – dizia Samuel, mal-humorado e desdenhoso. – Tenho talento. Desenho plantas de casas e de prédios melhores que os desenhados por arquitetos profissionais.

Ninguém lhe negava o talento. Samuel desenhava casas e prédios magníficos. Arquitetos renomados da cidade diziam-lhe que ele tinha talento, e o aconselhavam a estudar, para aprimorá-lo. Samuel, mal-humorado e desdenhoso, retrucava. Dizia que o seu sonho era ser arquiteto, e, para realizá-lo, o talento bastava.

- Samuel é talentoso, Noel – dizia-lhe Roberto Augusto, um dos mais importantes arquitetos da cidade. – Convença-o a estudar, e a aprimorar o talento.

- O que posso fazer, Roberto? – perguntava-lhe, em resposta, Noel. – Eu, a Irani, meu pai, meu sogro, todos da família o aconselhamos a estudar matemática, desenho, a ler bons livros, mas ele não admite a necessidade do estudo. Para ele, basta o talento.

- Se ele aplicar-se nos estudos, será um excelente arquiteto. Talento ele tem, e de sobra, mas precisa estudar.

- Eu sei. Reconhecemos o talento dele. Mas ele não nos ouve.

- Se ele não estudar... É uma pena que tanto talento se perca. Os estilos arquitetônicos mudam constantemente. Se o Samuel não estudar, nunca realizará o sonho de, um dia, ser arquiteto.

Samuel, intransigente, defendia a sua postura. O talento bastava, dizia, mal-humorado e desdenhoso. Dispensava os livros, os estudos, e as idéias de outros arquitetos.

- Serei um arquiteto – retrucava Samuel, mal-humorado e desdenhoso. – Tenho talento, e o talento me basta. Os medíocres estudam.

Noel, Irani, Tereza, Nelson, e outros familiares, aconselhavam Samuel a estudar, a ler bons livros, a conhecer as novas idéias arquitetônicas, a aprender a desenhar; ele, todavia, bastava-se a si mesmo, e repetia, sempre mal-humorado e desdenhoso, que tinha talento e que o talento lhe bastava.

Transcorreram-se os dias, as semanas, os meses, os anos. Samuel sonhava, um dia, ser arquiteto. Rejeitava, mal-humorado e desdenhoso, os conselhos que lhe davam.

- Um dia serei arquiteto – retrucava, mal-humorado e desdenhoso. – Basta-me o talento. É o meu sonho. E eu o realizarei. Sou talentoso. Aos medíocres, o estudo; aos talentosos, e eu sou talentoso, o talento basta. – tais frases ele as repetiu, sempre mal-humorado e desdenhoso, durante toda a vida.

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