Frustrações
07/06/2015 11:14Teófilo chegou na sua casa após um extenuante dia de trabalho. Usava o indefectível terno. Cumprimentou, na sala, com um beijo no rosto, Cláudia, sua filha, e, com um beijo na boca, Marli, sua esposa. Passos acelerados, rumou, pulando a escada de três em três lances, ao mesmo tempo que se despedia da gravata e desabotoava o terno, para o quarto. Do guarda-roupa retirou uma camisa, uma bermuda e um par de chinelo-de-dedos; em seguida, no banheiro, banhou-se.
Eram oito e meia da noite.
Enquanto Teófilo banhava-se, Marco Aurélio, seu irmão, premiu, duas vezes, com o dedo indicador direito, a campainha. Cláudia atendeu-o, estreitou-o num forte abraço, e deu-lhe acesso à casa; na sala-de-estar, sentaram-se no sofá, e entabularam conversa. Pouco tempo depois, Teófilo desceu à sala-de-estar. Cláudia pediu licença, e retirou-se. Marco Aurélio e Teófilo conversaram. Marco Aurélio disse ao seu irmão que necessitava de quinhentos reais para comprar remédios, e entregou-lhe a receita médica e um papel com o timbre da farmácia Nossa Senhora de Guadalupe no qual Marilene, uma das farmacêuticas, jovem simpática e bonita, para quem Marco Aurélio apreciava contar anedotas, anotara o preço unitário de cada caixa de cada um dos cinco remédios que, somados, iam a R$ 489,55.
- Arredonde, Teófilo – aconselhou-o Marco Aurélio. - O troco eu o pegarei, depois, lá na farmácia, ou com o doutor Toninho, ou com a doutora Marilene.
- Ela não é doutora.
- Será, um dia. Antes que ela se torne doutora, eu, por respeito, desde já a chamo de doutora. Assim, vou me acostumando a chamá-la de doutora. Mas isso não é importante, agora. O importante, agora, é o cheque. Não se dê ao trabalho de escrever quatrocentos e oitenta e nove reais e cinquenta e cinco centavos. Vai que você erra! E lá se vai uma folha de cheque! Então, escreva, de uma vez, quinhentos reais. É mais fácil. Você não vai errar. Quanto custa uma folha de cheque? Quanto tempo você demora para escrever quatrocentos e oitenta e nove reais e cinquenta e cinco centavos? E para escrever quinhentos reais? Não se prenda aos detalhes. A patroa está, lá em casa, esperando-me com os remédios.
- E o troco?
- Que que tem o troco? Ora, depois de levar os remédios para a patroa, irei ao bar do Correia tomar uma cervejinha. Precisarei desses dez reais e umas moedinhas.
Teófilo sorriu e abanou a cabeça.
- Espere um pouco, que já trarei o cheque para você.
- Disponha.
Teófilo retirou-se. Retornou, logo depois, e entregou uma folha de cheque para Marco Aurélio.
- Obrigado, Teófilo. Pagarei você quando puder, se puder. Como dizia papai: Devo, não nego; pagarei se Deus quiser. E como dizia o amado tio Jacinto, o maior caloteiro que nossa família já conheceu: Devo, não nego; pagarei se me convier.
Teófilo exibiu sorriso contido, e disse:
- Você precisa ganhar mais dinheiro, Marco Aurélio.
- Se fosse fácil! - disse Marco Aurélio, enfiando o cheque, a receita médica e o papel timbrado da farmácia no bolso posterior direito da calça. - Trabalho, todos os dias, há mais de vinte anos, faça chuva, faça sol, caia pingos, caia sapos, caia canivetes. Pra mim não há tempo ruim. Não tenho medo nem de trovões, e nem de raios. Encaro nevascas, avalanches, terremotos, erupções vulcânicas e alienígenas. Boitatá, lobisomem, vampiro e bicho-do-pé não me metem medo. Meto os peitos na vida, e ofereço a cara para receber os tapas que a vida dá; por isso, vivo me estrepando, pois não sou de engolir sapo, e não tenho sangue de barata. No final do mês, ponho no bolso, que na maior parte do tempo está furado, uns R$ 900,00. Uns R$ 1.000,00. No tempo de vacas gordas, o bolso arredonda-se com uns R$ 1.500,00. Mas, veja: todo mês as contas de água, energia elétrica, telefone e iptu comem-me uns R$ 200,00. Uns R$ 250,00. Uns R$ 300,00. E só isso porque eu e a patroa apertamos o cinto, e o cinto aperta-nos. E a cesta básica? Nem cesta, é; e nem é básica. Uns R$ 400,00. Uns R$ 500,00. Se não tivéssemos laranjeira, bananeira, amoreira, mangueira, aceroleira, jabuticabeira, limoeiro, pitangueira, caquizeiro, e uma horta com chuchu, espinafre, mentruz, alface, taioba, agrião, tomate, mandioca, chicória, e mais uma centena de matos bons pra saúde, o nosso gasto com comida iria à estratosfera. E o gás de cozinha, que em nenhuma casa pode faltar? Só em comida, energia, água, gás e iptu, um mês nos leva embora uns R$ 700,00. Uns R$ 800,00. Uns R$ 900,00. E os remédios da patroa? Uns R$ 400,00, em um mês. Uns R$ 500,00, em outro. Uns R$ 600,00, em um mês. Uns R$ 1000,00, em outro. E os exames médicos? No mês passado, fui na otorrino. R$ 120,00, a consulta; e R$ 80,00 e lá vai cacetada, os remédios. A vida não está fácil. E a patroa trabalha, quando pode, coitada. E quando é que pode? Ora reclama da coluna, ora dói-lhe a bexiga, ora o estômago reclama mais do que a nega do leite; ora é o pulmão que chia pra danar. E nem estou falando do Zezinho e da Ritinha. Eles, que estão crescendo, comem pra mais de metro. E não falei das despesas com roupas, sapatos e materiais escolares das crianças. E não sei o que mais. Ah! Ração para os cachorros. Saiba que um saco de ração, na semana passada, custou-me uma nota preta, o olho da cara. Não posso deixar de alimentar o nosso cão de guarda, embora ele não meta medo em ninguém.
- Você precisa dar um jeito na vida, Marco Aurélio. Você sempre recorre a mim, mas um dia posso não estar aqui para ajudar. E daí?
- Terei de me virar, né, Teófilo? Terei de me virar. Você tem um coração generoso, de ouro. Nunca abusei da sua boa vontade. Vim até você porque eu não tinha a quem recorrer e eu estava muito necessitado de dinheiro. São remédios para a patroa. Caso de vida ou morte. Bem, não vamos exagerar. Não é para tanto, mas se a patroa descuida, a morte vem que vem, com a foice em punho, gargalhando como uma hiena, e vapt, dá-lhe cabo da vida. Aí, não há remédio que cure. É cavar a cova, e dar adeus à velha. Mas não se preocupe, Teófilo. Daremos um jeito. A patroa, agora, após o ataque do virus, ou da bactéria, não sei... Deixe isso pra lá... A patroa não pode se descuidar. Se ela não se cuidar, partirá desta para a melhor, ou para a pior, não sei. Ninguém sabe. Não conheço ninguém que tenha partido deste mundo para o outro, e tenha retornado para nos dar notícia de lá. Chega de conversa fiada. A patroa me espera. Tenho de ir.
Marco Aurélio levantou-se. À porta da casa, despediu-se de Teófilo.
Teófilo sorria, satisfeito com a sua generosidade.
Durante o jantar, Teófilo contou para Marli e Cláudia o que Marco Aurélio pedira-lhe. Sentia-se eufórico com a ajuda inestimável que prestara ao seu irmão, que, apesar de trabalhador, mal conseguia ganhar o suficiente para a sua subsistência, a de Lúcia, sua esposa, e a dos filhos. Lamentava a situação deles, e atribuía-se grande bondade de coração por acudi-los nos momentos de necessidade.
Vinte dias depois, Maurílio, em um momento de dificuldades financeiras, recorreu a Teófilo, que lhe emprestou R$ 400,00 e prometeu-lhe entregar, todo mês, uma cesta básica. Teófilo encheu-se de si. Em casa, falou para Marli e Cláudia sobre o auxílio que ofereceu a Maurílio.
Dias depois, Márcia, irmã de Marli, ao volante do seu carro, não parou ao sinal vermelho, e colidiu com outro carro. Teria de pagar o conserto do seu carro e o do outro carro envolvido no acidente. Mesmo que sacasse todo o dinheiro que possuía na conta corrente e na caderneta de poupança, não conseguiria pagar nem a metade do conserto do carro contra o qual colidira. Recorreu a Teófilo, que lhe emprestou R$ 5.500,00.
- Da próxima vez, Márcia - disse Teófilo, sorrindo -, antes de uma colisão, procure saber se o carro no qual você vai trombar é de luxo ou popular; se for de luxo, evite a colisão. No caso de haver dois carros na sua frente, um de luxo e um popular, colida com o popular. O prejuízo será menor.
Márcia sorriu.
Poucos dias depois, Marcílio, vizinho de Teófilo, falou a Teófilo das dificuldades que encontrava para, na prefeitura municipal, conseguir o alvará para dar início aos trabalhos da empresa que construíra. Disse-lhe que, se respeitasse todos os trâmites legais e seguisse por todos os labirintos burocráticos teria nas mãos o alvará e daria início às atividades comerciais, na melhor das hipóteses, dali a cento e vinte dias. Marcílio já havia construído o ponto comercial, cujo investimento foi de R$ 200.000,00, já havia comprado todos os equipamentos (computadores, impressoras, fax, telefones, prateleiras, estantes, balcões, cadeiras, mesas, etc.), cujo investimento foi de R$ 100.000,00, e havia treinado seis funcionários (custo do treinamento: R$ 10.000,00). E o investimento em mercadoria foi de R$ 250.000,00. As primeiras faturas começariam a vencer dali vinte dias. Teria de recolher impostos e taxas dali um mês. Além disso, Marcílio, bem informado sobre o mercado no qual atuava, soubera que duas outras empresas - suas concorrentes – foram inauguradas nos últimos quinze dias, e atraíam inúmeros clientes. Teófilo, que conhecia os caminhos da burocracia da prefeitura tão bem quanto conhecia as linhas das palmas das próprias mãos, prometeu ajudá-lo. Uma semana depois, Marcílio recebeu o alvará, e abriu as portas da sua empresa.
Teófilo sentiu-se imensamente importante ao estender as mãos para ajudar Marcílio, que lhe disse que retribuiria o inestimável favor conseguindo-lhe clientes. Quatro meses depois, Marcílio apresentou a Teófilo um cliente, por intermédio do qual Teófilo conseguiu outros três clientes - e os quatro encheram os cofres da empresa de Teófilo: o faturamento aumentou 150%; o lucro, 70%.
- Não precisava, Marcílio - disse Teófilo, em um restaurante, durante o almoço, meses depois. - Você é trabalhador, homem de valor inestimável, bom amigo. Admiro você. Quando você veio me pedir ajuda, ajudei. Você merece ajuda.
- Teófilo - disse Marcílio -, meu pai e minha mãe ensinaram-me a ganhar a vida com meu cérebro e a força de meus braços e o suor de meu corpo. Há alguns meses, fui à sua casa, e pedi o seu auxílio. Eu sabia que você me estenderia as mãos para me ajudar. Você me ajudou. Serei eternamente grato a você. Se a prefeitura demorasse mais dez dias para me conceder o alvará, eu perderia, no mínimo, a metade do que investi. R$ 250.000,00, mais ou menos. Sabe o que tanto dinheiro me representava, há meses? Trinta anos de economia. Eu e a Marta economizamos muito, até arrumar o dinheiro para abrir uma empresa. Queríamos liberdade, independência. Não jogaríamos tudo pelo ralo. A prefeitura, com a sua proverbial burocracia, não nos impediria de ganharmos o nosso dinheiro. Não poderíamos perder tudo por causa de uns burocratas estúpidos e vagabundos. Não perderíamos o dinheiro amealhado, com suor e sacrifício, durante trinta anos, e tampouco desistiríamos do nosso sonho: o de sermos os nossos patrões. Não poderíamos pôr tudo a perder. Perderíamos R$ 250.000,00, mais ou menos. Ou os R$ 550.000,00 que investimos. E não estou considerando o desânimo, o desconforto, a perda de confiança em nós mesmos. Não há nada pior do que a sensação de impotência. Quando nos recuperaríamos, caso nos recuperássemos, do baque, e nos reergueríamos? Não seria nem um pouco fácil. Tínhamos de encontrar uma solução. Pensamos em você. Pedimos a sua ajuda. Você, nosso amigo, ajudou-nos. Eu e a Marta somos gratos, Teófilo. Você nos permitiu realizarmos o nosso sonho. Seremos eternamente gratos a você, nosso amigo. Eu e a Marta quisemos retribuir ao bem que você nos fez. Assim fomos educados. No momento em que você estendeu a mão para ajudar-nos, eu e a Marta assumimos um compromisso com você. Teríamos de retribuir ao favor que você nos prestou. Meses atrás, conheci o Mascarenhas, um ricaço, que tem contato com empresas de todo o Brasil e do exterior. Eu, então, o apresentei para você. Ele, depois, apresentou para você outros dois, ou foram três?, não me lembro, empresários bons de negócios. Eu e a Marta sabemos, Teófilo, que a sua empresa deu um salto gigantesco, e agora é líder do mercado. Estamos muito felizes com o seu sucesso. Os seus concorrentes, Teófilo, estão comendo poeira. Nossa! O papo está bom, Teófilo, mas tenho de ir. Tenho um compromisso às quatro horas. Agradeço, Teófilo, mais uma vez, a ajuda que você nos deu. Obrigado. Somos muito gratos, eu e a Marta. Posso falar em nome dela. Seremos eternamente gratos. Obrigado. Muito obrigado. Cuide bem dos clientes que arrumei para você. Clientes como eles são raros. Raríssimos.
Despediram-se. Marcílio retirou-se. Pouco depois, Teófilo rumou para sua casa. Lá chegando, fisionomia carregada, disse, taciturno, em tom rascante, para Marli:
- O Marcílio visitou-me, hoje...
Marli, conquanto intrigada com as reticências de Teófilo, nenhuma pergunta lhe fez. Percebeu-o indisposto, irritado. Estava certa de que algo magoara-o profundamente. Após dez minutos de silêncio, Teófilo, cuja fisionomia transparecia serenidade apática, cujo olhar transparecia alheamento e cuja voz transparecia desânimo, sussurrou, lentamente, com frases desordenadas repletas de reticências:
- O Marcílio conversou comigo, hoje, à tarde. Ele... Ele me disse que, por gratidão, retribuía-me a ajuda que eu lhe prestara... Ele, Marli... Ele me pediu ajuda para conseguir o alvará, lembra-se? Pois bem, ele... Hoje, ele me disse que retribuiu ao favor que eu lhe prestara... Não há dúvida... O Marcílio, ao apresentar-me o Mascarenhas, que me trouxe outros clientes... Nossa empresa nunca, jamais... Eu podia estar feliz agora, mas não estou. Você sabe por quê? Desagradou-me a atitude do Marcílio. Ele me tratou... Marli. Sabe... Ele me deu um recado: “Não preciso mais da sua ajuda, Teófilo. Você me ajudou. Ajudei você. Agora, nada mais devo para você.” Ele não me disse essas palavras... O Marcílio, arrogante, orgulhoso, soberbo... Ele foi... Não me disse... Ele não me disse... Não... Desprezou-me... A ajuda eu lhe prestei... Com muito boa vontade, o ajudei num momento de dificuldade, como ele me disse... Ele... Marli, ele me descartou... Como se fosse uma troca de favores... Arrogante, sabe? Queixo empinado. Cheio de si... Eu não merecia isso... Ele me deu a entender que ele só foi falar comigo porque precisava de ajuda. Como não tinha como recorrer à outra pessoa... Por que o Marcílio tratou-me com tanto desprezo? Ele me deu a entender que não me pedirá outros favores. Eu... Não sei o que pensar. Nunca imaginei que o Marcílio tratar-me-ia com tão altivo desprezo! Ele pensa que não precisará de mim... que não precisará de mim, nunca...
Dias depois, Márcia e seu marido, Cirilo, visitaram Teófilo e Marli. Márcia saldou, com juros e correção monetária, a dívida que contraíra com Teófilo. Com muito pesar, Teófilo, sorriso acanhado estampado no rosto, pegou-lhe o cheque das mãos.
- Que cara, Teófilo - comentou Márcia, expansiva. - Que cara! Parece, até, que você não gostou de receber o cheque. Hum! Já sei. Cenho franzido. Concentrado, olhos fixos no cheque... Você está preocupado, perguntando-se se o cheque tem fundos... Ora, Teófilo, o cheque é quente. O Cirilo recebeu uma nota preta, de comissão, neste mês. Com parcela do dinheiro que ele ganhou, saldamos a nossa dívida. E sobrou-nos um bom dinheiro. E recebemos uma ótima notícia, na semana passada.
- Duas - corrigiu-a Cirilo, até então em silêncio, sentado no sofá.
- Sim – prosseguiu Márcia. - Duas ótimas notícias. Uma: Sortearam-me no concurso do supermercado Economize Aqui. Ganhei o carro. Sabem quanto vale aquele carrão de luxo? R$ 150.000,00.
- R$ 180.000,00 - corrigiu-a Cirilo. - Vi na tabela. R$ 180.000,00.
- Sim - prosseguiu Márcia. - R$ 180.000,00. Recebemos duas propostas de compra. Um homem ofereceu-nos R$ 150.000,00, à vista. O outro interessado nos propôs R$ 170.000,00, metade à vista, metade da outra metade em trinta dias; e a outra metade da outra metade em sessenta dias. Estamos estudando as duas propostas. A segunda é a melhor. De qualquer modo, ganhamos, de bandeja, R$ 150.000,00, no mínimo.
- Conte-lhes a segunda ótima notícia, Márcia - pediu-lhe Cirilo.
- A segunda ótima notícia: O Cirilo foi promovido; além disso, o patrão dele, em reconhecimento à determinação dele, à vontade de trabalhar, à dedicação, à inteligência...
- Menos, querida, menos - pediu-lhe, sorrindo, Cirilo. - Por favor, querida, não me faça sentir-me mal diante da sua irmã e do seu cunhado. Menos, tá bem? Não exagere. Você está me constrangendo.
- Você merece os elogios, Cirilo. Você foi promovido. Conquistou a confiança e o respeito do seu patrão. Por que não posso elogiar você? Você merece elogios. Eu também os mereço, claro; afinal, se eu não tivesse ensinado algumas técnicas de persuasão a você...
A conversa prolongou-se até às dez horas da noite. À sua irmã e ao seu cunhado, Marli serviu café, leite, bolachas, pães, biscoitos e bolos.
Antes de se deitar para dormir, meia hora após Márcia e Cirilo irem-se embora, Teófilo, na cama, sentado, após fechar o livro O processo, de Kafka, recolheu os óculos ao estojo, pôs o estojo na cabeceira da cama, e comentou, em tom pausado, voz baixa, apático, ligeiramente desanimado:
- A Márcia... Ah! A Márcia... Você viu, Marli, como ela estava feliz? Ela ganhou um carro, em um sorteio... Que sorte! R$ 150.000,00! Tanto dinheiro assim não se ganha todo dia... É uma vez na vida, e outra na morte. E o Cirilo foi promovido; além de promovido, recebeu antecipação de comissão de vendas... A sua irmã e o seu cunhado, Marli, nasceram de quina pra lua. Agora, bem de vida, pagaram-me os R$ 5.500,00 que eu lhes emprestara, e com juros. Fizeram questão de acrescentar os juros. É impressão minha, ou a Márcia e o Cirilo estão esbanjando dinheiro, que não trás felicidade, e felicidade? Você viu a roupa que eles usavam? Pareceu-me, até, que eles ganharam uma fortuna na mega-sena. E eles me desdenharam. O que a Márcia disse-me? “Aqui está o seu dinheiro, Teófilo. Espero não precisar mais incomodar você com pedidos de empréstimo.” O que ela me disse não me incomodou. O olhar dela, o tom de voz dela, sim. Senti uma ponta de soberba na voz dela. De arrogância. De auto-suficiência. Como se eles pudessem dispensar a minha ajuda. Orgulhosos, eles não pretendem mais pedir-me ajuda. Você acredita? Com um golpe de sorte, a Márcia ganhou um carro. R$ 150.000,00! E o Cirilo, por sorte, trabalha para um patrão generoso, que lhe antecipou o pagamento de comissão... Seis meses de comissão antecipados... Foi isso o que ele disse? Agora ambos pensam que podem prescindir da minha ajuda... Se entendi o que eles nos disseram, e, estou certo, entendi, eles, agora, com dinheiro no bolso, arrogam-se à auto-suficiência. Não precisam mais de mim? Não precisam mais da nossa ajuda? A Márcia e o Cirilo enriquecem-se, com um golpe do destino, e, aí está!, não precisam mais de nós... Até quando eles prescindirão da nossa ajuda? Até o dia em que o poço secar? O dinheiro deles acabará um dia. E o que eles irão fazer? Vir, humildes, modestos, bonzinhos, ajoelharem-se diante de nós, e pedir-nos ajuda? Veremos o que acontecerá. As palavras da Márcia, mais as delas do que as do Cirilo, mas também as dele, chatearam-me. Então eles prescindem da minha ajuda...
Enquanto proferia as últimas palavras, enfiava-se sob o lençol e o cobertor, e apagava a lâmpada; logo depois, ele e Marli adormeceram.
Marli concordava com a opinião de Teófilo a respeito da postura de Márcia e Cirilo. Uma semana depois, disse para Márcia, no supermercado, que a postura dela e a de Cirilo não correspondiam com o respeito e a amizade que Teófilo sempre lhes dedicara, e perguntou-lhe porque agiam com tanta desconsideração. Márcia disse-lhe que não entendia porque ela fazia tal pergunta. Marli pediu-lhe que não se fizesse de desentendida, chamou-a de ingrata, emudecendo-a, pediu-lhe que não mais a procurasse e nem a Teófilo, e virou-lhe as costas.
Dois meses depois, em um sábado, Maurílio foi à casa de Teófilo, logo após o almoço. Encontrou-o no rancho, confortavelmente deitado em uma rede, com o jornal do dia às mãos, lendo o caderno de esportes.
- Ô vida mansa, marajá.
- Oi, Maurílio. – saudou-o Teófilo, ao mesmo tempo que dobrava o jornal. - O que deseja?
- Desta vez, Teófilo, nada.
- Nada? - perguntou Teófilo, surpreso. - O que aconteceu? Nunca vi você tão feliz. Conte-me as boas novas.
- São boas, mas não são novas - respondeu Maurílio, sorriso cativante estampado no rosto rubicundo.
- Atentei... Você está usando roupas de grife. Que elegância!
- Pois é, Teófilo. Mudei de vida. Consegui, nos últimos meses, ótimas encomendas de empresas do Recife, de Manaus, do Sul, e do Chile. Ganhei um bom dinheiro, nas últimas viagens.
- Novo emprego. Dinheiro no bolso.
- O mundo dá voltas. Na última vez que conversamos, pedi para você R$ 400,00 emprestados. Você mos emprestou, e comprometeu-se a dar-me uma cesta básica por mês. Hoje, Teófilo, vim pagar para você...
- Não precisa se preocupar, Maurílio.
- Eu sei, Teófilo. Eu, hoje... – entregou-lhe um maço de dinheiro; Teófilo, hesitante, tirou-lho das mãos, e o enfiou no bolso da camisa. - Você me ajudou. Eu, a Teresa e a Marilyn seremos eternamente gratos. Você nos ajudou quando precisamos de ajuda. Agora, que podemos pagar, pagamos. Questão de honra, Teófilo. Dívida se paga. Tenho brios. Pedi ajuda a você, Teófilo, porque precisávamos, eu, a Teresa e a Marilyn, da sua ajuda. Você nos estendeu as mãos. Sem que sua mão esquerda visse o que sua mão direita fazia, você nos ajudou. É bom ter amigos como você, Teófilo. Nos sentimos seguros, certos de que podemos contar com pessoas generosas como você. Tenho uma novidade: a Marilyn está trabalhando numa empresa de computadores. Não sei pronunciar o nome da empresa. É estrangeira. Multinacional. A Marilyn foi efetivada há dois meses. Recebeu o primeiro cheque: R$ 7.000,00. No primeiro mês de trabalho, imagine! Ela falou para mim e para a Teresa que daqui um ano o trabalho render-lhe-á, por mês, R$ 20.000,00. E pensar que até outro dia eu a pegava no colo, ninava-a e trocava-lhe as fraldas! A Marylin tem uma carreira promissora. A família está feliz... Teófilo, conversaremos em outra ocasião. Irei para São Paulo. Tenho viagem para a Colômbia, que agora é um país tranquilo. O Uribe fez bom trabalho lá. Embarcarei amanhã, às cinco da manhã. Tenho de ir, e preparar-me para a longa viagem. Teófilo, sou grato a você. Obrigado. Deus proteja você, que Ele ilumine você e toda a sua família. Nos encontraremos em breve.
Maurílio despediu-se de Teófilo, que ficou aturdido com a notícia, afinal presumira que ele lhe pediria ou dinheiro emprestado, ou algum favor. Poucos minutos depois, Marli, ao aproximar-se de Teófilo, perguntou-lhe:
- O que o Maurílio desejava?
Teófilo largou o jornal sobre as pernas. Olhou para Marli com olhos nos quais transparecia mágoa. Enfiou a mão direita no bolso da camisa; com os dedos indicador e médio, retirou o dinheiro que Maurílio lhe entregara, e entregou-o para Marli, que adivinhou, ao fitar Teófilo, que ocorrera alguma coisa que contrariava os desejos e a vontade dele.
- Você sabe quem trouxe? - perguntou Teófilo, referindo-se ao dinheiro. - O Maurílio.
- O Maurílio?
- Sim.
- Mas o que ele pediu para você?
- Nada. Ele veio me pagar o dinheiro que lhe emprestei há meses e as cestas básicas que lhe demos nos últimos meses.
- Por que ele fez isso?
- Questão de honra. Questão de moral. Sei lá. Desconfio que ele me faltou com a verdade. Ele nos deu um recado: Não precisa de nós. Nunca mais virá nos pedir ajuda. A filha dele... Qual é o nome dela? Esqueci. E não quero saber qual é. Ela trabalha, o Maurílio encheu a boca para dizer-me, para uma multinacional multimilionária. Ganha um ótimo salário, a moça. O Maurílio vai para a Colômbia. Ele veio aqui trazer-me essas boas notícias. Imaginei, assim que o vi sorridente, com roupa de grife, cabelos aparados, barba feita, perfumado... Parecia um ator de novela. Parecia um almofadinha, desses que vadiam por aí. Esnobou... Pagou-me o dinheiro que eu lhe emprestara... Com toda a desfaçatez deste mundo, entregou-me o dinheiro, deu-me as notícias... Com as notícias, passou-me um recado: Não precisa da minha ajuda. Agora... É... Quando precisou de ajuda, veio me pedir... Agora, diz que não precisa da minha ajuda porque ganha um bom salário, e a filha dele, de quem ele muito se orgulha, tem um bom emprego e um ótimo salário. Ela trabalha para uma corporação multibilionária. É sempre assim... Acostumei-me... Não... Não me acostumei... Não me acostumarei... As pessoas conseguem um novo emprego, um bom salário, melhoram de vida, e nos desdenham. Esteja certa, Marli: outras pessoas nos dirão que dispensam a nossa ajuda. Não é sem razão que a sociedade se desestrutura, as famílias estão em crise, a cidade moderna... Sabe, não é por outra razão que as pessoas não se entendem. Veja o Maurílio. Agora que está rico, ele nos trata de igual para igual e prescinde da nossa ajuda. O mundo está de pernas pro ar. As pessoas estão cada vez mais insensíveis, mais calculistas, e as relações humanas, cada vez mais frias... Como ajudaremos as pessoas, se elas nos dizem que não precisam da nossa ajuda? Quem foi a última pessoa que nos pediu ajuda? E há quanto tempo ela nos pediu ajuda?
Marli concordou com o que Teófilo disse-lhe; para ela, as pessoas estão, a cada dia que passa, mais cínicas, orgulhosas e arrogantes. Enriquecem-se, e não recorrem nem a Teófilo e nem a ela, não lhes pedem dinheiro emprestado, nem auxílio, nem conselhos. Como a sociedade conservar-se-á organizada e estruturada, se as pessoas não pedem ajuda umas às outras?, perguntava-se Marli.
Três dias depois, Marli encontrou-se com Teresa e Marilyn. Disse-lhes que elas e Maurílio eram ingratos e soberbos. Teresa e Marilyn entreolharam-se. Não compreenderam o que Marli disse-lhes, e porque lhes disse o que disse; pediram-lhe esclarecimentos. Marli não lhos sonegou. Com palavras ferinas, insinuações maldosas, cujos significados não escaparam ao entendimento de Teresa e de Marilyn, expôs-lhes o desprezo que nutria por elas, e disse-lhes que estavam cortadas as relações de amizade entre as duas famílias.
Transcorreram-se os dias. Transcorreram-se as semanas. Transcorreram-se os meses. Transcorreram-se os anos. Um dia, Marco Aurélio visitou Teófilo e Marli.
- Bom dia, querido irmão. Bom dia, querida cunhada - saudou-os Marco Aurélio.
Teófilo e Marli ficaram radiantes; seus olhos brilhavam de felicidade. Levantaram-se do sofá. Saudaram Marco Aurélio. Ele o saudou com um abraço caloroso; ela, com um beijo no rosto. Marco Aurélio ficou pasmo e pensativo. Surpreendeu-o o tratamento que Teófilo e Marli dispensaram-lhe. Eles nunca o acolheram com tanta urbanidade.
- Que bicho mordeu vocês? - perguntou-lhes Marco Aurélio.
- O bicho da felicidade - respondeu Teófilo, com largo sorriso adornando-lhe a face. - Ora, Marco Aurélio, há muito tempo você não nos visita. Quando foi a última vez que você veio ter conosco? Há dois anos? Há três anos? Sentimos saudade de você. Fique à vontade. A minha casa é a sua casa. Há séculos não nos vemos. A sua última visita perdeu-se no tempo, na memória. Há quanto tempo você não nos visita, não nos pede ajuda? Eu e a Marli pensamos que você havia nos esquecido.
- Eu, esquecer-me do irmão que faz a minha vida mais agitada e mais emocionante? Você é o tempero da minha vida. Eu nunca esqueceria você, mesmo que eu quisesse.
- Diga-nos, Marco Aurélio: O que você deseja? - perguntou-lhe Marli.
- Eu? Nada - respondeu Marco Aurélio, para surpresa de Teófilo e Marli, que petrificaram-se, perplexos.
- Nada? - perguntou Teófilo, com voz sumida. - Você não veio pedir-nos ajuda? Você não veio pedir-nos dinheiro?
- Você ficou surpreso, não é, Teófilo? – perguntou Marco Aurélio, sorrindo. - Você também, Marli. Surpreendi vocês. Vejo, na cara de vocês... Ah! É impossível esconder-me os seus pensamentos e os seus sentimentos... Hoje, Teófilo, venho pagar...
- Pagar-me? - perguntou Teófilo, estupefato.
- Sim. Lembra-se que você me emprestou, há uns três anos, R$ 500,00? Eu precisava de dinheiro para comprar remédios para a patroa...
- Como ela está? - perguntou-lhe Marli, lívida.
- Está fora de perigo. O doutor Toninho é um ótimo médico. Ele nos conseguiu muitos remédios. Com os remédios que ele nos deu, não gastamos o nosso rico dinheirinho. E a patroa voltou a trabalhar, há um ano, graças a Deus! E eu trabalho para um ricaço, que se mudou há três meses para a cidade, e que me paga um bom salário. Bom? Que bom, o quê! Ótimo! Bótimo, como diz a garotada. O meu novo patrão, vocês não acreditarão, é o Tio Patinhas ao avesso. Gasta pra dedéu. O Tio Patinhas, muquirana, mão-de-vaca, pão-duro, não abre a mão nem pra dar tchau. O meu patrão torra dinheiro como se dinheiro caísse do céu. Ele tem um nome esquisito. Não sei como se diz. Ou é alemão, ou é russo. Não sei... Polonês? Talvez. Talvez seja húngaro. Não sei de que planeta o meu patrão veio... Os que trabalhamos para ele o chamamos de doutor Von. Há um Von no meio do nome dele. Um Von entre um Ólfi e um Óviski, se entendi bem. Não sei como se diz o primeiro nome dele. Começa com um ‘h’ e termina com dois ‘f’. Saiba, Teófilo, que o doutor Von torra dinheiro. Não sei de onde ele tira tanto dinheiro. Como você diria, Teófilo, o doutor Von é um miliardário esbanjador. Eu, que sou pobre, não tenho diploma, e nem título de doutor, digo que ele é podre de rico e gasta pra dedéu. E ele não pisca um olho sequer ao assinar o cheque. Na semana passada ele preencheu e autografou um cheque, e mo entregou. R$ 2.000,00, por uma semana de trabalho. O doutor Von paga-me, nos sábados, à tardezinha. O luxo... Só bons profissionais fazem bem feito o trabalho. Modéstia à parte, no que me toca, sou um dos melhores profissionais do ramo, embora eu não tenha diploma, o que não me impediu de ser um profissional requisitado. Enfim, reconheceram o meu talento; e foi um gringo que o reconheceu, um gringo da Alemanha, da Tchecolosváquia, não sei de onde. A Tchecolosváquia ainda existe? Vi, na televisão, que a Tchecolosváquia não existe. Arrancaram-na do mapa. Ou o doutor Von veio da Iugoslávia? A Iugoslávia não existe, existe? Não sei... O mundo fica mais quadrado a cada dia que passa. Não entendo... Vamos deixar essa história pra lá. Noutro dia, perguntarei para o Cláudio, menino estudioso, filho do meu vizinho, como anda o mundo no que diz respeito aos países. Quais países existem, quais deixaram de existir, quais nunca existiram. Agora, vamos tratar do doutor Von. Vocês já ouviram falar dele? Um grandalhão barbudo com cara de um urso, maior do que um urso e mais peludo do que um urso. Um grandalhão daqueles grandalhões, sabem? Da altura do muro. Se não me engano, ele nos disse que é filho de pai alemão e mãe alemã. De Berlim. Isso! Ele nos disse que nasceu em Berlim. Berlim fica na Alemanha, não fica? Fica. Então, o doutor Von é alemão. Estou certo disso. Ele é um grandalhão. Vocês não o conhecem? Nunca ouviram falar dele? O Felisberto disse-me que os alemães são grandalhões, enormes, gigantescos. Ele também me disse que não há baixinhos na Alemanha. Quero dizer: Na Alemanha há baixinhos, mas eles não são alemães; são franceses. E as mulheres da Alemanha? Pelo amor de Deus! As mulheres da Alemanha, disse-me o Felisberto, são maiores do que os homens daqui da nossa terrinha. Todas elas são branquinhas, loirinhas e de olhos azuis, ou verdes, depende. Se estão maduras, têm olhos azuis. Se verdes, verdes. As mulheres lá do sul, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, disse-me o Felisberto, parecem-se com as alemãs. Até falam alemão! Elas, como as alemãs, são brancas e loiras; muitas delas têm olhos azuis; muitas delas têm olhos verdes. São altas, como as alemãs. E bonitas. São as mulheres mais altas do Brasil, as do sul, de Santa Catarina, da terra gaúcha, de Florianópolis. Disse-me o Felisberto que elas são filhas de alemães, netas de alemães, bisnetas de alemães, tataranetas de alemães. Tá explicado porque elas são altas, loiras, tem olhos azuis, ou verdes, e são branquinhas, da cor de leite desnatado. E são cheirosas, disse-me o Felisberto, que fala por experiência própria. Ele conheceu muitas gaúchas. Ele morou, durante quatro anos, em Porto Alegre, e dois anos em Florianópolis. Conheceu muitas gauchinhas, pitéus irresistíveis...
- Vamos direto ao assunto, Marco Aurélio - interrompeu-o Teófilo, com rispidez. - Você não veio pedir-nos ajuda, nem dinheiro emprestado... O que você veio fazer aqui? Você disse que veio pagar-me...
A postura de Teófilo, a sua rispidez, o seu rosto congestionado, os músculos da face contraídos, não passaram despercebidos de Marco Aurélio, que, de um só golpe, com olhar rápido e penetrante, estudou-lhe a fisionomia e a de Marli, e percebeu que eles estavam contrariados e irritados, mas não atinou com os motivos da contrariedade e da irritação deles, pois presumira que eles se alegrariam ao ouvir boas notícias. No entanto, conquanto percebesse a irritação deles e suspeitasse que foram as notícias que lhes dera que os irritara, não deixou transparecer a sua surpresa, e nenhuma observação inconveniente que lhes inflamasse ainda mais os ânimos lhes fez. À pergunta de Teófilo, respondeu no mesmo tom que vinha usando até então.
- Vim pagar a você, Teófilo, os R$ 500,00 que você me emprestou. Lembra-se?
- Lembro.
- Agora eu e a patroa podemos zerar as nossas dívidas. Aqui estão os R$ 500,00, e mais R$ 200,00, de juros.
- Você veio me trazer o dinheiro? - perguntou Teófilo, ofendido. Olhos fixos em Marco Aurélio, com movimento brusco, tirou-lhe o dinheiro da mão.
- O dinheiro e as boas notícias - respondeu Marco Aurélio, constrangido, movendo os ombros e passando o dedo indicador da mão direita na ponta do nariz, como se removesse alguma sujeira.
- Livre-me das boas notícias - disse Teófilo, ríspido.
- Que bicho mordeu você, Teófilo? - perguntou-lhe Marco Aurélio, confuso. Teófilo virou-lhe as costas, e afastou-se.
- Marco Aurélio, por favor, retire-se - pediu-lhe Marli, num tom seco. Marco Aurélio fitou-a, e perguntou-lhe:
- Pode me dizer o que aconteceu, Marli? Por que você e o Teófilo estão sendo tão rudes comigo? Que bicho mordeu vocês? Cheguei, e vocês me receberam de braços abertos. Agora... Vocês... O que foi que eu disse que eu não devia ter dito? Se alguma coisa do que eu disse ofendeu vocês, peço a vocês que me desculpem. Para dizer a verdade, Marli, não sei o que foi que eu disse que ofendeu você e o Teófilo. Vim pagar a dívida e trazer boas notícias para vocês...
- Não se faça de sonso, Marco Aurélio.
- Sonso?
- Você ofendeu o Teófilo e ofendeu-me.
- Ofendi?
- Por favor, retire-se. Você não é bem vindo nesta casa.
- Pode explicar-me, Marli, o que está acontecendo? Não entendo...
- Por favor, Marco Aurélio. A porta aberta é a serventia da casa. Esqueça que seu irmão e eu existimos. Se você não precisa mais da nossa ajuda, agora que tem um ótimo salário, não nos procure. Você, arrogante, soberbo, teve o desplante de pagar, e com juros, o empréstimo que o Teófilo fez para você. Nunca esperei isso de você, Marco Aurélio. Se você não precisa de nós, esqueça-nos. A soberba subiu à sua cabeça. Retire-se.
Estupefato, Marco Aurélio, em silêncio e boquiaberto, ouviu o que Marli disse-lhe. Em nenhum momento deu a entender que iria interrompê-la e pedir-lhe esclarecimentos. Retirou-se.
Marli, sem se despedir de Marco Aurélio, fechou a porta à chave, e regressou ao interior da casa.
No escritório, minutos depois, Teófilo e Marli conversaram.
- Imagine, Marli - disse Teófilo -, o Marco Aurélio... Aquele jeca... Ele, que nunca teve onde cair morto... Ele, que nunca possuiu o seu metro quadrado de terra, agora dá-se ao direito de dispensar a nossa ajuda... Não precisará do nosso dinheiro... Ele está rico. Trabalha para um ricaço alemão, o doutor Von. Que ignorante, o Marco Aurélio! Mal sabe escrever o próprio nome, o imbecil! Pateta! E está rico. Recebe R$ 2.000,00 por semana. O que o alemão, o tal doutor Von, veio fazer no Brasil? Por que ele não ficou na Alemanha? Ele veio perturbar-nos o espírito. Esses ricaços estrangeiros saem dos países ricos para investir e morar nos países pobres, e pessoas como o Marco Aurélio, caipiras desclassificados, enriquecem-se com o dinheiro que eles, gringos colonizadores, trazem, e dispensam a ajuda dos familiares e dos amigos... Sempre ajudei o Marco Aurélio... Sempre que ele me pediu ajuda, estendi-lhe as mãos, e o ajudei. Agora, o bandido, ingrato, por pura sorte, está ganhando bom salário, e põe-se no direito de dispensar a nossa ajuda.
- Não se preocupe, Teófilo. O Marco Aurélio, e não apenas ele, mas também a Márcia e o Cirilo, e o Marcílio, e todos os outros que dispensaram a nossa ajuda, daqui a algum tempo pedirão a nossa ajuda. Eles estão passando por um momento de bonança. Sorte, apenas sorte. Uma fase favorável. Passageira. Logo as coisas voltarão a ser como antes.
*
Márcia abriu, com os R$ 170.000,00 do carro que vendeu e mais uma parcela do salário de Cirilo, uma lanchonete de pratos típicos da culinária caipira. Marcílio ampliou a sua empresa, e exporta eletroeletrônicos e móveis para Uruguai, Argentina, Chile, México, Estados Unidos e União Européia. Marco Aurélio concluiu o trabalho na mansão do doutor Von, trabalhou para um ricaço americano, um milionário japonês e dois empresários paulistas - serviço não lhe falta, e nem dinheiro. Maurilio viajou para o Chile, para a Argentina, para o Canadá, e para o México. Marilyn, proprietária de uma empresa cujo faturamento anual é de R$ 20.000.000,00, e o lucro líquido anual, de R$ 1.500.000,00, presta serviços para estúdios de cinema e corporações multinacionais.
Teófilo e Marli os aguardam...
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